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Meu cérebro “pãozificado”

Cheguei de férias e parece que alguns dias de descanso era tudo que eu precisava para que a caneta voltasse aos meus dedos. Já me considero uma leitora moderna que aprendeu a usar a tecnologia e ler e-books em tablets, e-readers e celulares, mas, na hora de colocar meus pensamentos em ordem, ainda funciono à moda antiga: papel e tinta.

Hoje quero falar um pouco sobre o que ocupa quase todo o meu dia, praticamente 7 dias por semana e que até aqui pouco discorri filosoficamente: o pão.

O pão, de maneira tempestuosamente prazerosa ocupa tanto espaço em meu dia a dia que até esqueço que o mundo não tem pão na cabeça e não vive flutuando em aromas como eu e grande parde dos alunos que passam pela minha cozinha.

Até aqui não escrevi sobre como o simples ato de misturar farinha, água e sal pode modificar a química do nosso cérebro. Entao vos digo, fazer pão é terapeutico, contraditoriamente viciante, adrenalizante, emocionante… Nossos corações são invadidos por uma brutal e inexplicável alegria quando ao abrir o forno encontranos nossa obra de arte aprimorada por 250 graus celcius de temperatura. Todo padeiro é um artista. Mesmo quando sua padaria se restringe a poucos metros quadrados de um apartamento e voce faz pão apenas para si mesmo. Uma calma interior nos invade nos primeiros vinte minutos em que o pão foi colocado no forno, serotoninas despejadas no cérebro criam conexões perdidas nas incertezas do cotidiano e após a conclusão do assamento, o desejo aumento nos provocando a superar e já pensamos em como será a próxima criação.

Recentemente criei um grupo de alunos que compartilham experiências e receitas, que reforçam em mim a crença na grandiosidade deste alimento. Eles me impulsionam, fico orgulhosíssima de ver seu desenvolvimento e agradecida por fazer parte de suas vidas em uma questão tão importante que é a alimentação.

Hoje durante minha caminhada matinal na praia encontrei dois cães de rua alegres e saudáveis, daqueles que são alimentados por pessoas bondosas e vivem felizes a brincar uns com os outros. Estavam a correr e espalhar areia com toda parte com aquela cara de felicidade que chamava a atenção de quem passava. Meu cérebro “pãozificado” ligou aquela imagem ao ato de fazer pão, seja sozinha, em grupo ou em aula. A liberdade nos toma de assalto e até esquecemos por algum tempo nossos conflitos interiores e problemas práticos a serem resolvidos. Em nossas mãos neste momento muitas vezes temos o poder de transformar dor em alimento, porque fazer pão é antidepressivo.

Vejo isso constantemente na vida de alunos que foram transformados pela panificação e em minha própria vida, pois retornar ao pão e deixar todo o resto para trás foi como um grito de liberdade ecoado da mais alta montanha dizendo para mim mesma: “EU VENCI!”

Fazer pão faz a desordem da vida se encaixar eixo a eixo, comê-lo nos enche de prazer e certeza de que o amanhã será ainda melhor que hoje.

Vamos panificar a vida?

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